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terça-feira, 12 de abril de 2011

Que lhe dirão os galantes ventos
ao rondar-lhe os lindos cabelos?
Serão mais sublimes seus intentos
que estes versos que eu cá ensejo?

Saberão os canários cantar-lhe as mil formosuras
ou de todo se perderá o som do matinal elogio?
Quiçá, ao avistar da minha dama tamanha ternura,
os pássaros se vexem e não soltem do bico um pio.

Temo que nem mesmo o deus sol digno seja
de ter-lhe, sobre a pele fina, seus raios.
Pois alguém quem até o próprio Zeus deseja
não se pode manter sob cuidado dos lacaios.

Vênus, de certo, irá jurar-lhe vingança
quando se der conta de tamanha singeleza:
vive junto aos humanos uma bela criança
capaz de destituir-lhe a hegemônica beleza.

Mas o teu nobre seio que a todos encanta
que, com mesmo feitiço, tem-me subjugado
há de fazer do Olimpo tua mais nova manta
e do humano mais inocente um vil condenado.


Ode ao Amor Platônico

sábado, 2 de abril de 2011

Que porra nenhuma.
Você quer é nádegas.
E são o que eu quero também
além de peitos e bocetas
e além de todo o além.

Você quer é viajar feito louco.
Mas não pode, humano, não.
Por que você é de carne e osso
e não tem as receitas para sair
desse corpo monte de merda insosso.

Só sabe ficar assim, sábio,
assim esbelto e assim culto.
Nunca sentirá a alegria de um puto
ao entrar n'um cabaré e refletir,
entre bebidas e bocetas,
o sentido da vida.

Não sabe dar sentido a nada.
Por que tem tudo: não valem a pena
as garotas românticas que se despem
em cada pêlo excitado de seus corpos
às suas idiossincrasias e seus sensos
de achar que diz algo que preste, de censor.

Pois 'inda digo que mais vale
ter a confiança de todas as piores
doenças venéreas alheias a ter em si
o crédito de ser teu amigo, amigo.
Você é, das desgraças, a maior de todas.


Contenta-te!
[9 de Dezembro de 2010 ~ 22:58h]

sábado, 26 de março de 2011

A minha barriga fala comigo.
Mas eu não escuto, não:
eu sou a fome do mundo,
eu sou o miolo do pão.

As pessoas me olham torto,
mas isto eu compreendo bem:
sou eu, mais bêbedo que tolo,
sou eu quem mais erros tem.

O inferno me rejeita impiedoso
- cá no meu canto, eu sossegado:
já fiz de deus um ser glorioso,
depois o fatiei em mil e um pedaços.

Os narizes ressentem o meu cheiro,
das bocas não satisfaço o paladar:
sou o mais suado dos sertanejos
e o mais salgado dos homens a beijar.


Eu sou do mau

sábado, 19 de março de 2011

O mundo existe
não sei por que diabos.
Eu existo
e você também.

Existe a natureza
- os pássaros, morros.
Existem os edifícios
- prisões e escolas.

Às vezes olhamos o céu
cheio de estrelas ou não.
Nublado ou não.
E tudo faz sentido.

Mas só às vezes.
Por que, na grande,
grande maioria das vezes
é tudo tão obscuro e sombrio.

O fato é que existe verdade
- ou eu acho que existe.
Como bem existe a mentira
- e dessa eu tenho certeza.

Às vezes - raríssimas vezes -
tudo se encaixa perfeitamente.
É assim quando eu te vejo
- mas só quando te vejo.

Às vezes - poquíssimas vezes -
as palavras fluem bem.
Tão bem que é quase depressa
e prescindem-se os travessões.

Por que, quando eu te toco,
tudo se esvai em rumores.
Quando eu te como, minha certeza
perde completamente o sentido.

Deixa de ser certa.
Passa a ser errada.
Passa a ser incerteza.
Mas não deixa de ser.

Do jeito que eu não queria
deixar de te comer.
Do porquê você já sabe:
eu preciso de comida.

Preciso de ar.
Preciso de café.
Preciso de sexo.
Preciso de carinho.

E você pode me dar tudo isso.
Só você que não sabe.
E eu não vou ensinar.
Por que só eu também não sei.

Mas podemos saber só nós dois
- do mesmo jeito quando você
fica de quatro no escuro,
esperando pela penetração.

É lindo e eterno
- ou ao menos lembro 'inda hoje:
suas nádegas  reluzem no escuro
como a lua. Como uma bunda.

Mentira: foi só vaginal.
Mas foi incrível.
Incrivelmente gostoso
e incompleto.

Por isso não tocamos as estrelas, vê?
A constelação não está lá em cima
para entender a humanidade
- ela é inteiramente irracional.

E é nisso que dá
querer tocar as estrelas:
perde-se seu brilho,
descobre-se o seu passado.

É assim quando eu te olho
- como se o firmamento tivesse um porquê
de estar sobre minha cabeça
enquanto eu quero te deflorar.

Mas é assim quando eu te toco
- como se todo teu brilho sumisse
e nunca tivesse existido antes em lugar algum
que não fosse dentro da minha cabeça.

Talvez seja isto mesmo. Seja assim.
Mas você não pode compreender.
Você não compreenderia.
Não posso ensinar uma estrela a brilhar.


Alessandra

sábado, 12 de março de 2011

Condeno-me pelas horas de ternuras
entre prantos e gozos vividas.
Por todas as tuas carícias mais duras,
por cativares em mim perene ferida.

Condenam-me por a ti amar demais
e a mim amar tão pouco
sem saber que são tão desiguais
os sentimentos e a mente deste louco.

Condenas-me com teus viciosos pruridos
por teu ventre rubro e maculado
que eu tanto tenho amado
que eu tanto tenho comido.

Condena-me a mazela maior de todas
que n'uma de nossas noites escrotas
roubei de teu sangue ignominioso.
'Inda hoje, em língua, sinto teu gosto.

Condenaste-me à morte.