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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O coração ainda pulsa, forte,
sobre a mesa cansada.
Cansada da mesmice dos dias
sob um coração tão abatido.

As pernas ainda correm
sobre o chão pisado e humilhado,
sob os céus quase descrentes
de tanta persistência e ligeireza.

É que o futuro fura o meu peito
- presente. E passa para um
passado indolente, achando
mentira tudo que é lembrança.

E o tempo 'inda reclama
de passar tão lentamente
por entre estes versos
mal acabados de amor
[e de ódio.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Isso 'tá parecendo chá
mas é café.
Isso 'tá parecendo homem
mas é mulher.

Isso 'tá parecendo velho
mas é criança.
Isso 'tá parecendo magro
mas é só pança.

Isso 'tá parecendo vivo
só que tá morto.
Isso 'tá parecendo cansaço
mas é desgosto.

Isso 'tá parecendo alegre
mas é que nada!
Isso 'tá parecendo sóbrio
mas é cachaça.

Isso 'tá parecendo rima
mas é engano.
Isso 'tá parecendo texto
mas desumano.

Isso 'tá parecendo sério
mas é piada.
Isso 'tá parecendo grito
mas tá calada.

Isso 'tá parecendo bomba
só que é tiro.
Isso 'tá parecendo suave
mas é castigo.

Autodicotomia

domingo, 12 de setembro de 2010

A verdade em cabelos, barba e pêlos.
Além daquela escondida na massa cinzenta
sob o crânio nefasto que abriga o infatigável.

domingo, 22 de agosto de 2010

Miserável andarilho
- anda sem rumo na vida,
não carece de espartilho
para tornar real a ferida.

Procura em tudo e em todos
a sobrevivência que lhe é usurpada.
Encontra no fundo do poço
a mais pura amostra de água.

Esconde-se sob os ladrilhos do mundo
e necessita da piedade do céu
para que um deslize, n'um segundo,
torne-lhe de vagabundo a condenado réu.

Mas vive uma vida sadia
- sendo que é tão real com o patrão
quanto com a mais puta vadia,
a dividir, sem remorsos, o pão.

Pior que qualquer um destes é
aquele que vê tão indelicada sina
e, como quem só à própria vida quer,
sem pesar ou pensar - apenas vira à esquina.


Da Impiedade Humana

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Ao me ver perseguir-te,
E o fazer com tremores,
Escalda-me a face ao fel
Constrangida de tantos rumores.

De tanto fugires procedes
A um deus desgabador
Que a tua pele fere,
Dando-te curso superior.

E o fazes com tal destreza
Que a minha ninfa princesa
Torna-se monstro usurpador.

Usurpa em ti a beleza d'outrora,
Convertendo-te a uma cotada senhora
Infiel ao nosso curso fundamental
[inferior.


antiquu usurpare
17/11/2007