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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Calor infernal.
Daquele que corrói as unhas
gastas sobre a mesa
e revoando sob os espasmos de quentes ventos.

Preciso do dicionário.
Não é mais um livro
mas sim informações soltas
que ecoam por entre o calor da vida.

E da morte.
Essa que está chegando
mas não se morre hoje
nem amanhã mais o que já se morreu ontem.

Morreu-se de madrugada.
Durante toda a noite
nos bombardeios à querida cidade
que jaz em paz sob a lua linda e quente.


Um Calor Infernal

segunda-feira, 1 de abril de 2013


Quantas músicas não hei de escrever
até o dia de minha morte
que morrer sem compor música
-- que maldita sorte!
quando o peito é tudo verso
-- é só estrofe.

As palavras sobre e sob os ventos
que meneiam os cabelos
da menina que só se move por dentro
e assim mesmo
mexe com os olhos e olhares,
mexe com os pulsos e sangue e veias,
mexe com estas palavras.

As palavras sobre elas mesmas
que se fazem e se desfazem
-- com rimas ou sem.

Sobre os outros,
sobre nós,
sobre os mesmos.

Sobre antes,
sobre depois
e sobre agora.

Faltam-me notas, de certo,
faltam-me as queixas
das gueixas que pousam sobre meu ombro
suas madeixas
e sobre meu colo
suas anáguas.


Sobre as Palavras

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


Palavra, oh, maldita palavra minha
por que viestes ao mundo?

Somente a afugentar as vistas alheias
e maltratar aquelas mais desatentas ou sedentas?

Palavra pérfida e escrita
de quem será toda esta ira
que se desconsola através das letras
e invade ventres e âmagos
[no entanto deixando imaculadas as tetas?

Bem sabes que não tens nem dó
nem castidade.

Deitas em qualquer uma das camas
em que há muito nem eu mesmo tenho jazido
És pior que mulher traidora
e 'inda pior que o homem traído.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Que é ser visto por outros
se não me vês com as vistas postas
sobre os estábulos em que extravio
as desvairadas ambições d'a vida minha?

Que é tocar outras peles, beijar outros rostos,
sorrir com outros sorrisos
– quais não o teu –
co'estes dentes que minha pele aspira
[na mordida mais louca?

Q'é viver tal vida mais corriqueira e mundana
sem correr os teus riscos, delirar nos teus caprichos
e sonhar c'os suspiros teus ao meu ouvido?

Q'é ter tudo no mundo e as coisas todas
se nem precisando de tudo estava eu
e só precisava mesmo de tua boca?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Te ver.
Nunca mais te ver.
O que os meus tristes olhos hão de fazer?
Se não mais tua alva pele podem tanger.

Te ter.
Nunca mais te ter.
Nem deveria, este mancebo, dizer
que não pode - não mais - te possuir

se foi só de relance
foi só n'um instante
era só de partida
sem volta, só ida.

E eu ficarei com os mesmos tristes olhos
e longos versos que esperam sofregamente lentos
e ociosos demais por que já não podem cantar
as tuas formosuras de passado sábado à noite.

Quando o carnaval chegar novamente
estarei eu com a mesma gente
quando a máscara da alegria levantar
mas quando cair você não vai mais estar.

Não estará com teu plácido seio
em que eu, pueril, sossegava as vistas.
Nem com tuas coxas expostas, quase nua,
às vistas de todos que quisessem ter vista.

Restarão apenas as cinzas da quarta-feira
para marcar em minha memória a imagem acinzentada
de um amor que não durou
mais que suas chamas permitiram.


Te ter? Nunca mais te ter.