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terça-feira, 19 de julho de 2016

Uma cabeça
Tem uma cabeça
em cima do telhado
veja só o desmantelo
o corpo não está colado

O corpo
lá não mais está
como é que foi parar
essa cabeça sozinha
em cima da minha cozinha?

Não veio
ninguém procurar
a cabeça que se perdeu;
será que estão todos loucos
ou o louco serei eu?

Não posso
Não vou nada avisar
Se eu digo que tem cabeça
e ela não se avistar
em cima do telhado
[a minha também vai parar

O jeito
é esperar na minha, ligado
pra que se passa alguém atento
e dá por falta do corpo mequetrefe
não seja assim tão solitário
[o meu decapitado tormento


Uma cabeça

domingo, 10 de julho de 2016

Enquanto eu barro as ladeiras da minha casa
a moça passa
o amor perpassa
por entre os cantos das paredes
por entre as praças

Que eu moro nu
eu moro mundo
por entre os prantos
por entre os cantos

Enquanto eu barro as ladeiras da minha casa
eu choro um tanto
eu rio santo

Que deságua nas mesmas ladeiras
nos mesmos rios
nas mesmas madeiras

Enquanto eu barro as ladeiras da minha casa
o amor invade
eu também ardo

Que a vida seca
num descompasso
o infinito
desse percalço

Enquanto eu barro as ladeiras da minha casa

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Quem pintou estas paredes
agora está em uma gaveta
tingida de escuridão.

Onde a cor da lua não entra
e o chão 'inda mais esfria
a tinta que restou na mão.

Tanto barulho, tanto grito
que ecoou quando era vivo
agora cala na solidão.

Sem voz e, como sempre,
sem juízo -- só de rubra cor
cheio o galão.


Uma canção desconsolada

sábado, 2 de abril de 2016

Se você quiser me ter
me tenha bem devagarinho
no escuro ou no silêncio
no seu seio com carinho

Mas me tenha bem depressa
que a noite agora atravessa
a espessa luz do dia.

Se não quiser esperar
pode vir, venha pra já
que a dor é o prazer de escutar
o cochicho lento das horas
demorando a nos passar

Me atire no chuveiro
com seus raios de cabelos
que atiçam meu paladar.

Venha com a carne mais molhada
de tantos rubros beijos encharcada
como o desejo que se arde em tanto tempo
desdobrado no covil de meus desalentos

Me apague da memória os maus tempos
e me queira mesmo como dantes nos queremos
e nos queira como sempre nós fizemos.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Enquanto há gente que chora
enquanto há gente que ri
há gente que demora
há gente bem aí.

Enquanto há gente que passa
há gente que chega
há gente que vai embora
há gente que praceja.

Enquanto há gente que morre
há gente que mata
tem gente que escorre
e gente que nem fumaça.

Enquanto há gente que escuta
há gente que só fala
há gente que sonega
há gente que trespassa.

Enquanto há gente que cala
há também gente que ouve
há gente que já houve
já gente que há de vir.


Enquanto a gente

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Versos Inacabados II

Você está diferente
ou fui eu quem mudou?
Talvez tu ainda sejas a mesma
e eu é que o mesmo já não sou.

Cansei-me das mal ditas palavras
e dos meus mal lidos versos.

Versos Inacabados

Cansei de amar contido no verso
e de para ti exprimir este verbo.

Já não quero teus carinhos
e teus encantos deixo acabados.

Que o paraíso de te ter comigo
só durou o tempo da culpa de um pecado.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Teu descaso no meu peito
é rio que seca devagar
é chuva que veio pra levar
o que restou no meu coração

entre tantos sorrisos
e tanto abraços
sem nada, sem mágoa
fica apenas o gosto do pecado

que foi ter te amado
e de você a mim
ter tanto se dado

que foi ter passado pela vida
como quem não sente a ferida
de tantos ânus rebentados.


Uma reflexão póstuma sobre os amores que se esvaem

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Nem sei mais por onde ando
que dirá por onde andas tu
Quantas vezes já passei por morrer
quantas hás de ter passado também
Mas se não nos leva a morte
talvez o destino o faça
e nos conduza novamente
um ao encontro do outro
Nem que não seja pra beber aquela velha cachaça
que já não bebo
Nem que não seja pra dar aqueles bons tragos doutrora
Mesmo que seja só pra nos entreolharmos
e
─ sem cruzar os caminhos nem diminuir o passo ─
seguir em frente de volta ao caminho da vida.

domingo, 24 de novembro de 2013

Sou eu me escondendo na calada da noite
da noite calada,
aflita e vadia.

Sou eu evitando os seres humanos
menos as bocetas
-- que são as mais inumanas
[partes.

Sou eu escorrendo pelos ecos
mas não há ecos nem nada
nem silêncio.

São os animais correndo a todo o vapor:
fodendo, matando-se e sendo felizes
enquanto há um céu e olhos para ele.

São os mesmos erros, os mesmos acertos
e a mesma volta para tudo aquilo
que não se há de -- nem se quer -- escrever.

Mas não é nada.
Não são nada
nem sou nada.
Só soo.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Depois do dia, a noite.
A noite depois do dia
transforma as cores, o brilho
e a consciência adia.

Mais meia hora
mais meio morta
vai-se assim tornando concreta
a ideia que a mente excreta

nos pulsos, nos pescoços nas veias
nas velhas e cansadas pupilas dilatadas
que não retêm mais o êxtase
-- só a ressaca.

Depois da noite, o dia
até que a verdade nos separe
do disperso e secreto mundo das ideias
e nos leve de vez ao vazio.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A lua cai
das luzes ao meio
arrebenta a bossa nova
e eu serpenteio
por entre essa fossa
que se esvai
em largas doses.

Do cetim, do léu,
do prazenteiro
amigo rude, infiel,
eu sou alheio.

A tecnologia toda abduz
qualquer traço de insegurança
que seduz
belas damas
formosas damas
em versos de inspiração
que traz o drama.

Não sou mais eu que faço
a pura rima
- é o ferro, é a dor, é o aço
é a serpentina
estrada torpe por que caminha
um bêbado em noite enluarada
[ de Petrolina.

domingo, 15 de setembro de 2013

Existem letras lindas
e palavras mais belas ainda
quando escritas a duras penas
que enfeitam à alma o poema.

Existem versos cheios de rimas,
estrofes de beleza mais pura e mais fina
quais quando cantadas de toda a graça
ecoa pelos ares, erva boa.

Alexandrinos, sonetos e liras.
Metrificados, espaçados e impecáveis.
Embaralhados, confusos e contundentes.

Qualquer verso, qualquer rima,
qualquer estrofe de qualquer cantoria
é sem ela


Qualquer Poesia

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O que será que ele pensa
ao me ver feliz assim?
Será sincero o contentamento
ou morre de ciúmes de mim?

Quem será que ele vê
ao me ver assim tão bela?
A mesma que esteve em sua cama
ou não sou mais, eu, aquela?

O que será que sente
um coração tão cruel e rude?
Palpitará ainda seu peito
ou só o meu é que se ilude?

Se houvessem ainda as horas
e houvesse também o outro caminho
buscaria o aconchego em meu seio
ou viveria esta dúvida sozinho?


Dúvida de Mim

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Madrugada aflita
a terra grita
avisto os gritos
de guerra frita

os falos fritos
na madrugada
enluarada
sem sol, sem brava

aos berros ligos
sem mais alistos
meus sujos grilos
em seus mamilos

sem mais nem meio
no cerebelo
n'alma do cabelo
por ser pentelho

não sei q'é isso
sem presunto misto
será que é xisto
q'agora insisto?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Eu sempre entro por você
por estas suas brechas
com que me cega as vistas
já muito desgastadas por não enxergar cousa alguma.

Entro de novo no nosso passado
percorro todos os vestígios
que são quase nenhum
mas me dão as pistas que prescindo para lembrar você.

Há quase nada
há muito pouco
há uns segundos
e tudo se esvai de novo como se já não houvessem

os mesmos livros
as mesmas rimas
os mesmos desencontros
que, eles sim, são sempre os mesmos com quem me encontro.

Como se 'inda não houvesse
o término
o decrépito
e o insensível prontuário que dita as normas do que já não somos

já não fazemos
não seremos
nunca fomos
e para sempre hemos de ser.

As normas dessas coisinhas
do dia a dia e de tudo
que se sabe ter de ser
mas que eu não quero ter que escrever aqui também.


Eu sempre entro por você

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Calor infernal.
Daquele que corrói as unhas
gastas sobre a mesa
e revoando sob os espasmos de quentes ventos.

Preciso do dicionário.
Não é mais um livro
mas sim informações soltas
que ecoam por entre o calor da vida.

E da morte.
Essa que está chegando
mas não se morre hoje
nem amanhã mais o que já se morreu ontem.

Morreu-se de madrugada.
Durante toda a noite
nos bombardeios à querida cidade
que jaz em paz sob a lua linda e quente.


Um Calor Infernal

segunda-feira, 1 de abril de 2013


Quantas músicas não hei de escrever
até o dia de minha morte
que morrer sem compor música
-- que maldita sorte!
quando o peito é tudo verso
-- é só estrofe.

As palavras sobre e sob os ventos
que meneiam os cabelos
da menina que só se move por dentro
e assim mesmo
mexe com os olhos e olhares,
mexe com os pulsos e sangue e veias,
mexe com estas palavras.

As palavras sobre elas mesmas
que se fazem e se desfazem
-- com rimas ou sem.

Sobre os outros,
sobre nós,
sobre os mesmos.

Sobre antes,
sobre depois
e sobre agora.

Faltam-me notas, de certo,
faltam-me as queixas
das gueixas que pousam sobre meu ombro
suas madeixas
e sobre meu colo
suas anáguas.


Sobre as Palavras

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


Palavra, oh, maldita palavra minha
por que viestes ao mundo?

Somente a afugentar as vistas alheias
e maltratar aquelas mais desatentas ou sedentas?

Palavra pérfida e escrita
de quem será toda esta ira
que se desconsola através das letras
e invade ventres e âmagos
[no entanto deixando imaculadas as tetas?

Bem sabes que não tens nem dó
nem castidade.

Deitas em qualquer uma das camas
em que há muito nem eu mesmo tenho jazido
És pior que mulher traidora
e 'inda pior que o homem traído.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Que é ser visto por outros
se não me vês com as vistas postas
sobre os estábulos em que extravio
as desvairadas ambições d'a vida minha?

Que é tocar outras peles, beijar outros rostos,
sorrir com outros sorrisos
– quais não o teu –
co'estes dentes que minha pele aspira
[na mordida mais louca?

Q'é viver tal vida mais corriqueira e mundana
sem correr os teus riscos, delirar nos teus caprichos
e sonhar c'os suspiros teus ao meu ouvido?

Q'é ter tudo no mundo e as coisas todas
se nem precisando de tudo estava eu
e só precisava mesmo de tua boca?