Páginas

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Estou triste para a prosa;
Muito feliz para o verso;
A frase sai sempre torta
E o verso como eu não quero.

Estou triste para evangélico;
Muito feliz para católico;
A missa - cheia de mistérios
E o culto - muito simbólico.

Estou triste para tocar;
Muito feliz para cantar;
A nota me erra sempre à garganta
E a corda me fere muito - do dedo - a pança.

Estou triste para sorrir;
Muito feliz para chorar;
A lágrima seca a desabrochar
E o riso... Sabe lá - não quer sair.

Estou triste para amar;
Muito feliz para o amor;
O coração, qual valente,
Sabe que um pobre demente
[não sonha em vão.


A Dubiedade Nostálgica

sábado, 15 de novembro de 2008

Um editor
Um escritor
Um bêbedo e
Uma vagabunda.

São os artigos indefinidos
De uma história
Sem final feliz e
Sem final triste.

O escritor escreve
Sobre o bêbedo e
O bêbedo come
A vagabunda

O editor edita
O escrito e
A vagabunda lê
O livro.

Rabiscos n'um guardanapo

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sinto, meu bem,
Por te ter em pecado.
Melhor perdurar entre um laço
Que roubar de outro meu doce regaço.

E essa doce luxúria,
Que agora te cerca
Não vive sem brechas
Não acha moradas desertas.

Por pior que seja a dor
De outrem que se ache aqui
Não é maior que o prazer que sinto
Ao ficar, vendo-te partir.

Ao meio se faz
O que já não era inteiro.
E no meu peito se traz
Algo infértil, putrefeito.

De amor ou suor,
Em visto que não é lama,
Atende o prazer da chama
De quem agora consola o teu drama.
[AMA!

Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Degolo-te todo o prazer em sangue vivo.
Estupro-te a vontade outr'ora sonegada.
Dá-me o que me há de ser
Apenas um bibellot fruto do teu prazer.

Usufruo das tuas pele, boca e alma.
E quando já sinto tocando em mim os teus pêlos
É que me consome uma leve calma
Que transtorna o mais prazeroso desespero.

Concubina dos meus maiores delírios!
Cortesã do meu mais sórdido membro!
Qual preço que cobras por ser eu
Teu possuidor mais honrado e intenso.

Vexa-me as calças desde o momento em que as uso
E em ti não deixo vestes de lã ou veludo,
Senão tuas tímidas auréolas que - anodinamente
Tentam esconder os teus mamilos de minha mente.

Quando parece, o suor, nos consumir por completo
Ainda há entre teu ventre outro fluido mais discreto
Qual acalma por um segundo nossos instintos insanos
Mas logo rasgam-se os nossos corpos - em fogo brando.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Obsceno

Chamais-me viciado, pois por todo o
Dia estudo a mim mesmo - e fumo!

Pois acordo-me e subo as escadas
Da forca; e lá abro um livro branco,
E vos leio palavras não-escritas.

Clamais-me viciado, porque em ter
Uma cigarrilha aos lábios, estudo
Poesias; traduzo poesias e não ensino a poesia.

Porque bebo do álcool vulcão que jorra,
Derreto à chama do tesão e volúpia,
E, de entre gotas, estudo, interpreto
E crio a ciência.

Chamais-me viciado, porque uivo;
E grito ao caos; viva noite!
E caminho e furto ao caos.

Viciado rogais-me vós,
E odiais-me as mãos femininas,
Ou a serenidade viril, não paz!

Vivo e crio e destruo e experimento.
Vagueio às sombras das épocas
E não vos temo, bocas aflitas;

Sou o próprio tóxico a desintegrar
A cura falsa da perfidez pública,
E esoterismo da repetição eterna,

Publico a morte em vida,
E toco-me em vida, em morte;
Odeio-me assim tanto e amo a mim,

E não creio o bom, nem o mau;
Nem litigo a inconsistência do ser.

Odiais-me vós já que meu vestido é negro,
E a minha dor e o meu amor, versos sujos;

Que decaem e me jorram unidos,
Do meu próprio ser que lhes é,
No sangue em delírio, também negro.

Cuspi-me, pois que sou puta moderna,
Que rende, prova e odeia o mundo,
E, indiferente, vos abre as pernas.


Thacle de Souza Pinheiro,
Segunda-feira, 6 de outubro de 2008.

sábado, 4 de outubro de 2008

Experimento-te, complexidade das épocas.

Vivo, pois, numa época vagabunda!
De vielas mais civilizadas, e assaz
Imundas, enlouquecidas, e primatas.
Meu lar à meia-noite numa rua turva.

O privilégio daquela geração larva,
Vem sombrear-se no conselho alheio,
E alucinar lágrimas da deriva fatal
Em piscar o olho por associar seu
[delirante préstimo de História...

Eu sou o fim disso; e de tudo mais.
Estou ao fio de vosso lamento, sim!
Sou a tormenta do beijo que liberta,
[quando se faz, em prévio ver...

Tenho todas as faces da experiência,
E do tempo que transborda da taça,
Deslizando pelas minhas mãos magras,
[de meu sentimento prostituta...


Thacle de Souza Pinheiro,
Sábado, 4 de Outubro de 2008.

sábado, 6 de setembro de 2008

Estou namorando
Com as minhas lembranças
Pena é não poder tocá-las,
Como fazem as crianças.

As crianças tocam os seus sonhos
Com brinquedos invisíveis
Riem da verdade mais sóbria
Criam mentiras plausíveis.

Desconfiam do mais puro afago,
Crêem no ladrão da esquina
- roubando seus doces anos.

Namoro com minhas lembranças
Como uma criança que descobre seu sexo
Na mais gostosa das infâncias.

Namorado

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Poesia, amiga minha, recorro-te.
Apanha esse revólver e mata a mim
O eu que é menos eu.
O eu que é eu sem mim.

Caneta, mãe de tantas letras,
Fura-me o coração solução.
Deixe apenas a amargura sem lar
Amparada à minha solidão.

Poeta, filisteu, ressuscita-te.
Não deixe que se vá agora
A inspiração de há meia hora.

Poeta, demônio meu,
Não sei o que há
Sob os versos do meu imperar.


Soneto sem nome - post 70

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Olá, devaneio enamorado do raro...!

Ria-se assim como eu, em braços!
Braços ao ar! Como o sopro raiz
Da flauta quimera, delicadíssima.
E um som todo alheio, apenas som.

É som de tuas pernas a vibrar.
Som de tuas costas delicadas,
Em desatino de descansar, retrair.
Aliar-se o silêncio ao amparo.

Mas que silêncio víbora! Fatal!
Silêncio que me devora, astuto.
Que cante a tua voz, devaneio,
Assim como canta teu pernear;

Eu sou só isso, ódio do vôo.
Do vôo moderno, do vôo antigo.
Do vôo das asas gastas, e novas.
Do vôo amor de felino em veneno.

Do felino que - em qualquer céu;
Eu! Era o meu desatino de ser!
De desconstruir e falsar o mundo.
O meu desatino, e só. Que tens tu?
[Que tens tu com isso, fidalgo?

Suma! Suma de meu vôo anti-vôo.
De meu ser alheio e perdido.
Invadirei-te os olhos e ademais;
Quando furtar-me ao desejo em ser.

Pois que te tocarei o algodão,
Em vezes de ser só um olho teu,
E o outro em mel soar a um verde,
Às gotas da solidão em melindre.

E aí estás tu, personagem facetada.
Num melindre-em-ti que não vês.
Nem te sentes na minha brisa-calma.
Que te avança - segura-te à brasa!

Ah! Zás do solavanco do ser-etílico!
Embriagado, bêbedo, iluminadíssimo
Pela luz em cores de lira vagabunda,
Da vida útil e só útil do todo-qualquer.

E que esvaia ao primeiro trago!
Eu sou todo de cá, do Mundo-Caos.
Sem te saber, sem te sentir;
Sem te tocar os lábios da incógnita.

Tua incógnita desmedida, em pompas.
Na flutuação longa do pavio curto.
No devaneio que é explorar o vil,
Non-sense em teus braços-flautas.

Eu sou a melodia deslizando só.
Só em cada vez - suspiro de tempo.
Da ação-ver do presente lunático,
E aí goteio a perversão da fruta!

Minha fruta-da-rainha-em-Noite,
Dos arbustos infinitos da solidão.
Da onda marítima só eco do avulso.
E dá lá uma ou mais nuvens de fumaça...

A deliberar é deitar-me no Orbe,
Em olhos fechados e pernas esquecidas.
Mãos que Obra, olhos à Mente em fruir,
Cada pedaço que parte do beijo roubado.

Beijo roubado, voz da minha Noite!
Roubado de tua dispersão, e afeto.
Roubado do teu quiçá eterno e perdido.
À flauta que talvez não te seja flauta...


Thacle de Souza Pinheiro;
Ao domingo do dez de agosto de 2008.
Às 02h07min.

domingo, 3 de agosto de 2008

Aluga-se um coração.

Um coração doente de nascença,
Saudável de doença.
Enjoado de viver,
Louco pelo prazer.

Um coração cansado de política,
Dotado de veia artística.
Com uma aorta etílica
E uma veia sádica.

Um coração assim como os outros,
que bate em ritmo solto.
Desmedido, comedido e remediado.
Junto, solto, agarrado e separado.

Um coração assim bobo e sagaz,
De baixo custo e fugás.
Que duro dure mais alguns anos
Bombeando esse sangue desengano.

E se você quiser locar,
Pode ficar à vontade.
É pegar, levar e ficar.
Depois é morrer de saudade.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Solilóquio

Pois que me escutem ao clamar!
Eu, prole da poética esfaimada,
Não sou âmago de arrimo algum.

Nem solicito a aprovação sólida,
Fumada de súbito, sem adorno;
Ao que já é tempo de desandar.

E a sonsice do cultuador alheio,
É demais sonífera; que inércia!
Que demasia rasteira terráquea.

E o bravio destronado e torto,
Sem anjos, nem demônios astutos,
Já é o conjunto anverso ao ser.


Thacle de Souza Pinheiro;
Terça-feira, 17 de Junho de 2008.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Babélico IV (Quadro de Poemas)


XIII

Tropel

Lá está a Cidade do Salvador;
Aos deleites de saborosa febre.
Mas ultraje seria o lesco-lesco,
Da já tropelia dos salvos irmãos.

Ainda de chuvas penosas aquém,
De travessuras audazes e vis;
Daquela poética que se desfia,
Excitada em quaisquer transtornos.

Thacle de Souza Pinheiro;
17 de Junho, 2008.
Às 16h47min.


XIV

Flâmula

Este é o lábaro dos insultuosos!
Dos Folhetins Negros e apaixonados;
Da virtude negligente e nababesca.
E despejar de toda finada liturgia.

Entre os cúmplices do arcaico vinho;
De papiros aguerridos e crestados,
Há ainda toda labareda de outrora,
Pois antegozo é só, fronte à Escuridão.

Thacle de Souza Pinheiro;
17 de Junho de 2008.
Às 17h02min.


XV

Virtude Púrpura

Eu embebo meu frontíspício,
De todo meu cônscio decair;
Há - de todos sabores - cá!
Toda esta policromia ardil.

Não por ser de arcaísmo vil,
Ou de modernismo em decúbito,
Mas da Tribo que é por étimo.

Thacle de Souza Pinheiro;
17 de Junho de 2008.
Às 17h12min.


XVI

Esconjuro

A biblioteca dos vulpinos;
Fértil de euforias nocivas,
Em que o derruir estilístico,
Habita, enfim, todo alvorecer.

Convescote de sabores mútuos,
No descair do empeno empírico,
A cada desatino que convidativo.

Thacle de Souza Pinheiro;
17 de Junho de 2008.
Às 17h28min.
É, meu caro, a vida lhe passou nas frontes
Como um gélido sopro.
Que nem deu pra sentir frio.
Amanhã, sabe-se, não será um belo dia
E todos os que passaram foram melhores que hoje.
Os bons tempos se foram.



Memórias de um defunto

domingo, 22 de junho de 2008

Lindas, as nuvens no céu
Praguejam-me dúvidas.
Aqui, em terra, eu
Cheio de dívidas.

O sol se põe, intransigente
E sem culpa alguma.
Eu me escondo, em minha mente
Com uma condenação nua e crua.

Dormem os médicos, cansados.
Morrem os pacientes, descuidados.
Descuidam-se que viver já dói.

Aparece-me uma alergia contagiosa
Junto a uma melancolia venéfica.
Todos morrem um dia, seu crápula
[tu, vives mais um.

domingo, 11 de maio de 2008

Adeus, amigo prévio

A mão morta que, ufana,
Apedreja a minh'alma
Diz-me eloqüente, sem drama,
"Tua hora 'inda não tarda".

Cresce, burgo, sob poder de deuses,
Esmigalhando todos os sonhos ateus
De um burguês incrédulo desses.
Qual eu, debate-se d'entre filisteus.

Não há mais - não há
Idílio em teu enredo teatral
A não ser aquele surreal
Que se afoga, perdido, ao mar.

Não há mais - não há
Esperança morta bem-vinda,
Mesmo ainda que divina
Dentro de uma burguesa sala-de-estar.

Não há mais cancro ignóbil que não doa
Dentro d'alma de um a toa
Que nem a um deus ateu perdoa.

quinta-feira, 6 de março de 2008

A sensibilidade morta.

Que esta enzima milenar me possua,
E todos meus planetas involutários,
Aniquile o prazer, meu belo ansiar.

Que me engula noutras mordidas, que
Não uma única desfeita afetuosa. Oh!
Consuma-me os imortais membros vis.

Que me beba, mergulhado ao desprazer
Daquele que mente, mas que num gabo,
Afoito - em Noites mastigadas, enfim.

E nu! Impiedosamente nu! Excitado!
Este viril desgosto que se inunda
Sozinho, ao inane antro não-fugidio.

Estas mãos, então! Num léxico desamante,
Outrora, neste pélago do desapego-mil,
Não voltarão - decerto - deste aconchego?

De que morro eu? Que desaprovo a falta
Destes intermináveis dissabores que
Quase me fogem, esbeltos não-careceres.

Ou assisto àquelas películas rudes,
Duns galhardos - esmerados belos,
Afoito em mim, neste sobejar inócuo?

Unindo-me ao despejar de cabeças,
Trôpegas - que afeição voluptuosa!
Tão confusas - ou mero padecer reles?

Que multiforme sensibilidade fortuita!
Vejo-me sozinho e quase deliciado.
Até esqueço-me de tuas pomposas pernas.

Daquele apego extremo e atemporal,
Enganando mesmo a uns peritos amantes,
Nuns tresloucados ósculos vaidosos.

Sim, anjos e demônios verdes e azuis!
Que esta seja a minha perdição, como
A um amante que já se tenha encantado.

Que este clamor esbelto morra entre
Teus olhos, os que me seduziram,
Minha experimentação poética prima!

Aquele que fora, e que se afluíra!
Que inflamara as vias deste rumo,
Doravante avulso de sensibilidades!

Que pesar o de ser mero entretanto!
Nem frutífero, ainda menos audaz!
Este poetastro que ao piano, apenas.

Quase que a te cantar umas canções,
As canções que apenas dele, vê, orbe?
Tu que ao planeta, eclipsou contudo!

Que este imperfeito bem-querer múltiplo
Seja a prova de minha frivolidade hostil
Que desagua neste mar-solitude, imundo!

Como a percepção doutro onírico Sol,
Curvado à Lua que se estende cálida,
Nesta Noite que me turva o compor.

Afinal, que este descaminhar constante
Desfaleça nestes braços incomunicáveis,
Ao amplexo que é o ante deste amar.



Thacle de Souza Pinheiro;
A 06 de março de 2008.

sábado, 1 de março de 2008

Delírios galhardos.

Aqui há o fardo dos fingidores,
Qual aprazer sucinto - ouçam;
Senhoras e senhores! Entretanto,
Desacreditem, ledores parvos,

Que a euforia desvairada deste
Amásio colorido de vulcões,
À astúcia se é mais feroz,
Quando a si, mata e o destrói.

Deveras louva-se a Arte Cosmos,
Sacrifica-se em obras espúrias,
Pela franqueza que é padecer,
A leais dissabores intrínsecos.


Thacle de Souza Pinheiro;
Sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Atavios dos desamantes.

Decerto que não mais desfruto
Deste deslizar perene de tuas
Madeixas às minhas peripécias
Inconvenientes e insolentes.

Enfrentava, que consternava,
Os crepúsculos de tuas mãos,
Desinibindo minha derrocada,
Imerso num solão confronte.

Aspergidos - ainda breves;
De entretantos e todavias,
Desordenados e indistintos,
À impecabilidade de sobejar.


Thacle de Souza Pinheiro;
Sexta-feira, idos de 29 de fevereiro de 2008.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A que pecado expia,
Agora, minh'alma.
Que'm noite quente ou fria
Sofre calada.

A que dor se flagela
Dentre tantas outras
- tristezas minhas e delas
Servidas à manjedoura.

A que amor se desfaz
A cada pensar insone
Que - eternamente fugaz
- dorme, sem nome.

A que janela se esconde
A buscar n'outro lado conforto
Sem saber matar sua fome
Desse mundo de funesto desgosto.

Gratia I

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Afeado diletante

Fustigava-me, a tal petulante concubina azulada.
Florida, ungia-me em amores à abóboda celeste.
Mortifica-me ainda cá, nuns versos que acientes.

Idolatrado autor! Comparsa de si, o sôfrego amásio.
Ciente de mentir e afluir a um oceano de apatias vis,
Uma enumeração ríspida dos objetos de sensaborias.

Afagos aos instigados e mendazes versos, finados
Aos trejeitos - aniquilados - que uns pormenores
Quais confins dum só querer, o ermo do poetastro.


Thacle de Souza Pinheiro;
Quinta-feira, idos de 27 de dezembro de 2007.