segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

É preciso ter pressa
pra correr até as colinas
e não tropeçar na esquina
nem na língua da vizinha.

É preciso não tardar a chegar
à idade dos sábios homens
em que só a mais torpe ideia
pode persuadir-lhe ao engano.

É preciso acertar sempre
e fugir do erro a qualquer custo
é tão preciso quanto todas
as errôneas necessidades.

Só não é preciso o beijo
- navegação de duas línguas alheias
pelos mares salivares das almas
que velejam torpemente.

Não é precisa a caridade
da doação pelo simples ato
e pelo simples e tenro fato
de a boa ação ser em troca de nada.

Não é preciso o sentimento
que nos confunde e nos embriaga
- transformando até o mais sensato momento
em mais um tresvario da alma.


Eu Preciso

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Quem vê a letra não pensa
que o que se sente é o que se lê
e também sempre se esquece
do que se esqueceu de antever.

Não é possível entender o mundo
- escrito, falado ou tocado.
O esforço é sempre suburbano
diante do limbo que se tem alçado.

Mas as inteligíveis sensações nem sempre
compensam a mente daquilo que se pensa
que se entende quando se quer e se esconde
no braço jazido de um qualquer.

Por que o mais valioso de tudo que há
está escondido por entre as entrelinhas
e a verdade mais oculta que existe
está exposta às mais cegas vistas.


As Nossas

domingo, 22 de janeiro de 2012

Meus olhos não se enganam:
eles sabem que é você
o motivo por quem tanto reclamam
que ainda não te podem ver.

Os meus pés estão sempre certos
e eles seguem os teus rastros
mesmo em meio ao campo aberto
são sobre os teus os meus passos.

Meu falo por ti fala
ansiando por teu ventre
quando a noite vem e me cala
não é o teu fogo que ele sente.

O tempo é sábio e não pára
mesmo quando estás ausente
com ciência de que virá a hora
de que em ti serei presente.


Patientae

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Uma nota à toa soou do violão
quando eu o levantei pela mão
dizendo que o dia estava vazio
e quem me viu debochado nem riu

de minha piada inane
de meu gesto imóvel
de meu olhar tardio
de minha face decrépita.

Foi por desatino,
foi por desengano,
foi por injustiça mesmo
foi-se mais um ano.


Lira dos 21.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Olhos pelo avesso
- está tudo acabado.
Se bem que onde termina
também recomeça o pecado

que a pele inflama a chama
e de novo reaquece
quem de comida requentada carece
e recome o que já havia deglutido

n'outras tragadas já esquecidas:
razão de parecerem ser novas
as velhas ações jazidas
nas mais diversas camas

e em lençóis tão velhos
e tanto, tanto esquecidos
que nem mesmo o tempo lembra
de o crime ter acontecido.


Amar é Crime